| Museu do Forte do Presépio: relíquias da fundação |
| Diário do Pará | |
| 08-Mar-2010 | |
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O navegador Francisco Caldeira Castelo Branco partiu de São Luís (MA), em novembro de 1615, coberto de glórias. Prestigiado pelos superiores, após ter ajudado na conquista da capital maranhense, recebeu como nova missão a conquista da boca do rio Amazonas. Saiu de São Luís no dia de Natal e, exatamente no dia 12 de janeiro de 1616, as três embarcações que comandava penetraram as barrentas águas da baía do Guajará. Para a posteridade, naquele momento nascia Nossa Senhora ou Santa Maria de Belém do Grão-Pará e Castelo Branco, por sua vez, ficaria conhecido como o “Descobridor e Primeiro Conquistador do Rio das Amazonas”, segundo o historiador Aníbal Barretto. Tudo bem, mas o que tem isso a ver com o Museu do Forte do Castelo? Baixe as escotilhas e vamos em frente, que a nau ainda tem muitas milhas a navegar... Não pense que, no século 17, se apossar de um território era tão fácil quanto contemplar o pôr-do-sol ao final de um dia em alto mar. Não bastava chegar ao povoado, fincar uma bandeira e esperar o consagrador julgamento da história. Os cerca de 200 homens que vieram na expedição trataram logo de erguer, às margens da baía, um forte onde pudessem se abrigar e proteger a cidade de invasores, saqueadores e prováveis ataques de estrangeiros, em especial os corsários ingleses e holandeses que perambulavam pela Amazônia e esperaravam o menor vacilo para se apoderar das terras. Outra função da construção, cujos alojamentos eram cobertos por palha, era defender a tropa do ataque de índios hostis, até então os únicos habitantes da região. Apegado a datas, Castelo Branco lembrou que partiu de São Luís no dia 25 de dezembro anterior e então batizou o abrigo como Forte do Presépio de Belém. A calmaria durou pouco. A tropa foi surpreeendida por um ataque selvagem dos índios tupinambás, comandados pelo chefe Guaimiaba (“cabelo de velha” na língua da etnia), morto em combate. Ao final da batalha, o abrigo foi destruído e os portugueses tiveram que construir um novo, mais resistente. Como suas novas linhas ficaram semelhantes às de um castelo, o espaço foi rebatizado como Forte Castelo do Senhor Jesus Cristo. Passaram-se os séculos e o nome foi trocado para Forte Castelo de São Jorge, monumento tombado pela União em 1962. O paraense, sempre orgulhoso de sua história e tradições, passou a tratar o espaço com grande intimidade e hoje só se refere a ele como Forte do Castelo. É ali que repousa a origem da fundação de Belém e da colonização da Amazônia e em cada peça catalogada pelo Museu do Forte está a ligação com a identidade, com o prazer de ser paraense. Esses laços estão por toda parte, mesmo nos bairros mais distantes do centro da cidade, sendo que o espaço é a voz da história, retratada em peças centenárias. “É um dos museus mais importantes do Brasil, pois representa por excelência a historia da urbanização de Belém e, consequentemente, do Pará e da Amazônia”, diz Pio Lobato, guitarrista, compositor e produtor musical. “Cresci, moro e faço música na Cidade Velha”, acrescenta, quando lembra com carinho do bairro de coração. Volta ao passado em passeio turístico obrigatório Quando passeamos no “Sítio Histórico da Fundação da Cidade”, é possível apreciar desde canhões e metralhadoras, utilizados em várias fases diferentes da fortaleza, até uma série de vestígios arquitetônicos que foram descobertos após prospecções na área, para os serviços de reforma e reestruturação a que foi submetida há alguns anos. Sua função turística é outro grande atrativo para o visitante. “A Cidade Velha é o nosso verdadeiro recanto cultural, e o Museu do Forte mostra muito bem o que há de mais característico em relação ao passado de nossa cidade. Por ser morador da Cidade Velha, percebo o quanto é importante para todos nós preservar esse acervo cultural da Amazônia, que é de suma importância para o turismo da cidade”, confirma o designer gráfico Toninho Castro. Por outro lado, quando adentramos a parte interna do forte, a coisa mais difícil é não se emocionar e surpreender com o Museu do Encontro, na sala Guaimiaba, que homenageia o guerreiro chefe dos tupinambás. É lá que se encontra um vasto repertório de objetos confeccionados em cerâmica tapajônica e marajoara e mais uma porção de objetos que foram recolhidos dentro mesmo do sítio arqueológico, como um cachimbo, uma moeda de ouro da época do Brasil Império, cunhada em 1792, época de D.José I, fragmentos de balas, porcelanato e cerâmica. Vestígios da antiga Capela do Santo Cristo, que tem data estimada entre 1621 e 1626, também foram localizados. Para completar, o museu tem, em suas dependências, portais que contam a história da colonização amazônica. Nesse particular, um requinte a mais para o visitante: tanto os mapas quanto os textos funcionam como uma espécie de licença poética ao escritor italiano Ítalo Calvino, o famoso autor de “As Cidades Invisíveis”. Por tudo isso, o Museu do Forte do Castelo é mais que um passeio pelo tempo; é a constatação de que o Pará vive o presente, se orgulha do passado e, nas suas glórias, se inspira para construir o futuro. Por que se orgulhar? O Museu do Forte do Castelo é o ponto de partida quando se quer conhecer a nossa história. Seu acervo guarda um passado glorioso, peças centenárias de cerâmica e porcelanato e dezenas de outros adereços de inestimável valor sentimental. É um dos principais pontos turísticos de todo o Pará e mais do que motivo de orgulho para todo o paraense da gema ou de coração. |
